PREVIDÊNCIA E CRISE NA ARGENTINA(*)
Vinícius Carvalho Pinheiro Secretario de Previdência Social do MPAS Brasil
12/2001
A crise argentina está estruturalmente relacionada com os impactos fiscais da privatização da previdência. Em 1994, foi implementada a substituição parcial do sistema público de repartição, onde os trabalhadores financiam os aposentados, pelo sistema privado de capitalização individual, em que cada trabalhador contribui para fundos de pensão privados para financiar a sua aposentadoria.
A passagem do sistema de repartição para o de capitalização tem apresentado elevados custos de transição, inviabilizando o equilíbrio nas contas públicas. As receitas da previdência oficial diminuíram, pois parte da contribuição do trabalhador, antes aportada aos cofres públicos, passou a ser destinada aos fundos de pensão privados. As despesas aumentaram porque o Estado, além de continuar custeando os inativos, deve garantir aos trabalhadores um benefício proporcional em reconhecimento às contribuições feitas no passado.
Em razão da reforma, o déficit previdenciário argentino aumentou de US$ 891 milhões, em 1993, para US$ 6,7 bilhões no ano 2000. No mesmo período, observa-se a deterioração do resultado do setor público, que saiu de uma situação superavitária em 1993, para fechar o ano 2000 com um déficit de US$ 6,9 bilhões praticamente o mesmo da previdência (ver gráfico a seguir).
Para financiar este rombo provocado pelos "custos de transição", o governo argentino recorreu ao endividamento junto aos próprios fundos de pensão. Atualmente, cerca de 65% do total de ativos destes fundos estão investidos em títulos públicos nacionais ou emitidos por entes estatais. Os recursos correntes, que antes entravam diretamente no caixa para financiar as aposentadorias, passaram a ingressar como recursos financeiros obtidos a partir da venda de papéis do Estado. Para garantir o pagamento dos benefícios, o governo teve que pagar elevados juros ao setor privado.
Além disso, parcela dos recursos recolhidos passou a ser direcionada ao pagamento dos custos operacionais das administradoras dos fundos de pensão. A reforma de 1994 estabeleceu que a contribuição dos trabalhadores argentinos para os fundos privados seria de 11%, dos quais, em média, somente 7,5 pontos percentuais seriam depositados nas suas contas individuais, sendo o restante destinado para as taxas de administração e contratação de seguro contra morte e invalidez.
Entre as medidas anunciadas recentemente, está a redução da contribuição dos trabalhadores aos fundos de pensão para 5% da remuneração, dos quais somente cerca de 2,7% pontos percentuais são depositados nas contas individuais. Como o montante destinado à capitalização será menor, a tendência é que, no futuro, ocorra a diminuição do valor dos benefícios, sendo que muitos segurados sequer conseguirão acumular os recursos necessários para garantir o benefício mínimo. Esta tendência deverá ser reforçada pelos impactos potenciais da reestruturação da dívida argentina sobre a rentabilidade dos fundos de pensão, tendo em vista que estes são os principais credores internos do governo.
A perspectiva de diminuição dos benefícios futuros, aliada aos elevados custos operacionais, gera desincentivos à filiação ao sistema previdenciário, diminuindo a sua cobertura. Conforme dados da Organização Internacional do Trabalho OIT, em 1994, no ano de implementação da reforma, 49,7% da população ocupada argentina contribuía regularmente para a Previdência. Em 1999, este indicador caiu para 41,7%. A redução da cobertura repercute novamente em pressão futura sobre as contas públicas, com elevação dos gastos assistenciais.
Esta também é a realidade do sistema chileno. Nesse país a cobertura do sistema diminuiu de 71,2%, antes da reforma, em 1975 (uma das mais elevadas da América Latina), para 63,6% no ano 2000. Esta redução está associada, em parte, a elementos estruturais, como o incremento das taxas de desemprego e mudanças nas relações de trabalho, com o aumento do número de trabalhadores autônomos e informais. Por outro lado, grande parte dos contribuintes não consegue acumular a reserva necessária para garantir benefícios razoáveis nos fundos de pensão, e como o Estado garante um benefício assistencial mínimo, sem contrapartida contributiva, acaba-se tendo um efeito de moral hazard, gerando-se uma estrutura de incentivos em favor da desistência da contribuição.
A redução da cobertura tem implicado o aumento dos gastos com benefícios assistenciais e com os subsídios para os benefícios mínimos no Chile. Este passivo social tem recaído sobre as contas públicas. No ano 2000, a soma do déficit operacional do sistema antigo, com o pagamento de bônus de reconhecimento e com os gastos assistenciais e subsídios às pensões mínimas equivaleu a 5,7% do PIB chileno.
No Brasil, a passagem para o sistema de capitalização foi estudada em 1998 e 1999, sendo descartada em razão dos elevados custos fiscais que representaria. Estimativas de instituições nacionais e internacionais chegavam a valores que variavam entre 200% e 250% do PIB.
A opção brasileira foi a implementação de uma nova fórmula de cálculo dos benefícios, em que o valor destes passou a ser equivalente à divisão de uma estimativa do montante contribuído por cada segurado pela expectativa de sobrevida deste no momento da aposentadoria.
Este tipo de reforma não tem custos de transição e permite ajustes periódicos dos benefícios à dinâmica demográfica, já que uma das variáveis do cálculo é a expectativa de sobrevida, publicada anualmente pelo IBGE.
A reforma brasileira permitiu a estabilização do déficit do INSS ao redor de 1% do PIB até 2020, apesar dos aumentos reais conferidos ao salário mínimo, e, certamente, constitui-se em um importante diferencial entre Brasil e Argentina.